O que o Brasil pode aprender sobre home office com as startups

Por Vagner Santana, Diretor de Tecnologia da Apdata

Centro da pandemia do novo coronavírus neste momento, os Estados Unidos não estavam totalmente despreparados para uma situação de exceção como essa — apesar da gravidade inédita neste século. Na verdade, as experiências de alguns estados com desastres naturais e, no caso de Nova York, do 11 de setembro, modificaram muitas práticas das empresas americanas.

Nos EUA, muito tem se falado sobre o bom trabalho realizado na Califórnia, na costa Oeste. Ainda que o sistema de saúde do estado esteja em alarme, assim como em outros lugares do país, o histórico de combates a consequências de incêndios, furacões e terremotos tem ajudado agora a enfrentar a covid-19.

Não à toa, as autoridades de San Francisco foram as primeiras dos EUA a colocarem as pessoas em quarentena — o que os especialistas apontam ter sido um dos motivos para o achatamento da curva de contaminados na cidade. Além disso, legislações que haviam sido criadas durante outras crises oriundas de desastres naturais estão sendo úteis no combate à doença neste momento — como a que prevê reembolso para internações realizadas em um estado de emergência.

Em San Diego, um incêndio que destruiu mais de 1,5 mil casas em 2007 e colocou meio milhão de pessoas em quarentena fez a cidade repensar ações públicas em situações de exceção, como a da covid-19. Na ocasião, quando a evacuação foi feita, o governo local começou a colocar diferentes cidadãos em papéis de coordenação com instituições centrais — como clínicas de saúde, abrigos e empresas — para que eles também ajudassem em meio à crise.

No entanto, não é apenas nesses sentidos que os EUA podem oferecer lições para o mundo em isolamento: as startups americanas — muitas delas no Vale do Silício, também na Califórnia — possuem diversos aspectos que ajudam outros centros de negócios mundiais a gerir os funcionários em home office. São práticas que organizações brasileiras de vários tamanhos podem adotar.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos conseguiram realizar uma transição mais suave em direção ao home office porque muitas empresas já passaram por uma transformação digital. Nelas, todos ou quase todos os processos são automatizados, as operações estão dispostas na nuvem e os RHs podem gerir a força de trabalho remota sem grandes dificuldades. Dados publicados na imprensa americana recentemente mostram que, neste momento, metade da economia do país está operando por meio dos funcionários que, em quarentena, mantiveram suas empresas em operação.

Na vanguarda desse processo estiveram as startups, sempre na dianteira deste debate sobre novas formas de trabalhar e entregar. Além disso, elas colaboraram muito para transformar a mentalidade de que, em casa, as pessoas não iam executar suas atividades — algo ainda muito disseminado no Brasil.

Em segundo lugar, o home office era uma prática comum nos Estados Unidos desde meados dos anos 2000. De lá para cá, várias mudanças nos perfis legislatórios foram feitas — como os regimes de remuneração e de jornada de trabalho, mais flexíveis no país do que no Brasil –, assim como a infraestrutura e as ferramentas para que o trabalho remoto fosse viável foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas pelos fornecedores e pelos clientes (as empresas e instituições públicas). Novamente, as startups foram grandes consumidoras desses novos instrumentos, quando não as próprias criadoras delas.

É interessante observar que essas ferramentas também estão disponíveis às empresas brasileiras. A questão, porém, é o uso que se faz delas: nos Estados Unidos, por exemplo, a rede pública de ensino já estava toda equipada com o Teams, plataforma de conferências da Microsoft, que agora está possibilitando a continuidade das aulas, enquanto muitas escolas do nosso país ainda não implementaram esse tipo de tecnologia.

Por último, muitas startups têm adotado uma estratégia de negócios que tem sido elogiada: disponibilizar seus serviços gratuitamente por um período, de forma que os possíveis clientes possam não apenas consumi-los em meio à crise, mas também que eles possam gerar conversões quando a situação melhorar.

Todos esses pontos não impedem que as startups também enfrentem desafios: o site especializado Protocol inclusive apontou alguns deles em um artigo publicado neste mês. Além da quarentena da força de trabalho, está a queda nas demandas e mesmo o medo de alguns clientes com a situação econômica. No entanto, elas podem ser o caminho para repensar o que será do mundo pós-pandemia.

Se é um momento difícil para o mundo, as empresas também podem tirar lições: no caso das brasileiras, a de que o home office — quando as organizações estão preparadas para geri-lo — pode ser uma alternativa para o mundo do trabalho.

Compartilhar
Adicionar aos favoritos o permalink.

Os comentários estão encerrados.